No way out - Robert Crumb

*"Não há saidas, só ruas, viadutos e avenidas (Itamar Assumpção)"

O papel de Drummond

Papel

E tudo que eu pensei
e tudo que eu falei
e tudo que me contaram
era papel.

E tudo que descobri
amei
detestei:
papel

Papel quanto havia em mim
e nos outros, papel
de jornal
de parede
de embrulho
papel de papel
papelão.


*"Embora me assuste a idéia de estarmos ruminando, o que podemos fazer é continuar a mastigar..."

Gatos dos Aniversariantes

Hoje a vida de um dos grandes poetas Argentinos, Jorge Luis Borges que construiu sua grande carreira de poeta e ensaista é lembrada, no dia 24 de Agosto em seu 112º aniversário, e é capaz de continuar vivo com esse tanto de vida escorrendo por aí.

Neste dia tambem uma poetisa muito importante na história do Larvas tambem faz aniversário, essa ainda viva, essa com seus 25 anos de sonho, sangue e américa do sul; esta que constrói sua obra e história com poemas sensíveis, despretenciosos, simples mas que vão além da razão e da exatidão. O grupo Larvas deixa aqui tambem sua homenagem para Patricia Fonseca e deseja que a lua, vista do telhado seja sempre cheia.

À un gato

No son más silenciosos los espejos
ni más furtiva el alba aventurera;
eres, bajo la luna, esa pantera
que nos es dado divisar de lejos.
Por obra indescifrable de un decreto
divino, te buscamos vanamente;
más remoto que el Ganges y el poniente,
tuya es la soledad, tuyo el secreto.
Tu lomo condesciende a la morosa
caricia de mi mano. Has admitido,
desde esa eternidad que ya es olvido,
el amor de la mano recelosa.
En otro tiempo estás. Eres el dueño
de un ámbito cerrado como un sueño.
                          JORGE LUIS BORGES



     *pic: Picasso

Gatas

Presença silenciosa, delicada, arisca
Me fazem companhia
Se esfregam nos meus pés, se aconchegam no meu colo
...Até lambem meu choro
Ronronam alto para que eu possa saber a felicidade
Às vezes penso que são como eu
Avessas ao que é normal e chato
Gostar de água fria e chão limpo
Ter ração cara e escolher a caça
Finas e amorosas
Felinas, femininas
Mas quando fúria
Riscam e fazem sangrar
             PATRICIA FONSECA


*Eles cuidam da passagem do mundo de lá pro cá, eles comunicam telepaticamete, eles são lacaios das bruxas...

postagem de Murdock
com colaboração de Lais Oliveira

Terrorismo - Art Spiegelman


"Quem vigia os vigilantes?" ou "Oprimir ou não a opressão, eis a questão"

Acabo de ver um vídeo imerso no calor da madrugada mexicana, entre livros copos d’água e uma curiosidade que não me deixou voltar aos estudos antes de terminar de assistir. Terminei. Puto.  
Não posso ir deitar com a minha pesada consciência inconsciente tranqüila sem cuspir algumas roucas palavras. Na verdade, ela não está e nem estará tranqüila.
NÃO VOU ficar reproduzindo um sensocomumclassemédiauniversitária de que a mídia é uma merda os hippies são legais vocês são todos alienados vamos xingar os policiais.
Esse texto NÃO É um julgamento de valor sobre como os hippies, ou artesãos de rua, ou maluco da BR, ou bichos grilos etc., se vestem, o que eles usam, se as músicas que eles ouvem são boas, se eles são bonitos, se eles usam "drogas", se eles tomam banho, se eles passam creme hidratante no cabelo, se os trabalhos deles são bons, se eles são educados para abordar as pessoas ou se eles deviam ou não ser quem eles são, fazer o que eles fazem.
Mas algumas coisas ficam bem claras quando vemos esse vídeo. Vivo:
 A maldita máscara social que encobre o fascismo velado das pessoas que passam e não fazem nada pelo que está acontecendo, dessas roupas lindas que dizem quem é quem o que é o que quem deve ser respeitado quem deve ser fiscalizado quem deve ser massacrado quem deve ser calado.
A maldita máscara midiática da gente que vê e lê e compra e dá seu consciente e inconsciente de mão beijada pra esses manipulados manipuladores que nos dizem o que comprar de quem gostar o que vestir a quem beijar a quem amar a quem odiar o que pensar.
A maldita máscara legalista que se dá o direito de fazer o que quiser pelo bem de todos pelo bem dos tolos pelo bem do senso comum forjado pela segurança dos que pagam seu salário e que não é o povo mas quem controla o dinheiro do povo que não quer sair do oco encolhido em sua confortável casacascadeovo.
A maldita máscara opressora que pode roubar em nome da lei que pode dizer o que é e o que não é o braço do estado que não dá o mínimo para tantos que não se enquadram no jogo dos contentes para tantos que não querem nadar até o fundo do poço pra pegar a moedinha e subir no topo escroto dessa ridícula pirâmide social.
Se eu rogo pela destruição dessas e de tantas outras máscaras?
Não. Mas que ao menos usemos algumas com buracos nos olhos, mesmo que pequenos, para tentar acender alguma faísca nesse breu informativo, ideológico, cultural. Humano?
Pra quem sabe um dia ascendermos a fogueira da ação coletiva.
Sairmos desse curtoodiscurso.
Difícil acordar e depois de abrir os olhos, abrir os dentes num sorriso que não seja amarelo. Triste se deslumbrar com tanta beleza feita pelas mãos do mundo e pelas mãos e mentes do homem.
E parar pra pensar, e não saber, se vale a pena. Se vale a tinta. Se vale o sangue.

Canta, Mario Benedetti:
¿De qué se ríe?
(Seré curioso)

En una exacta
foto del diario
señor ministro
del imposible

vi en pleno gozo
y en plena euforia
y en plena risa
su rostro simple

seré curioso
señor ministro
de qué se ríe
de qué se ríe

de su ventana
se ve la playa
pero se ignoran
los cantegriles

tienen sus hijos
ojos de mando
pero otros tienen
mirada triste

aquí en la calle
suceden cosas
que ni siquiera
pueden decirse

los estudiantes
y los obreros
ponen los puntos
sobre las íes

por eso digo
señor ministro
de qué se ríe
de qué se ríe

usté conoce
mejor que nadie
la ley amarga
de estos países

ustedes duros
con nuestra gente
por qué con otros
son tan serviles

cómo traicionan
el patrimonio
mientras el gringo
nos cobra el triple

cómo traicionan
usté y los otros
los adulones
y los seniles

por eso digo
señor ministro
de qué se ríe
de qué se ríe

aquí en la calle
sus guardias matan
y los que mueren
son gente humilde

y los que quedan
llorando de rabia
seguro piensan
en el desquite

allá en la celda
sus hombres hacen
sufrir al hombre
y eso no sirve

después de todo
usté es el palo
mayor de un barco
que se va a pique

seré curioso
señor ministro
de qué se ríe
de qué se ríe.

*Mario Benedetti foi um poeta, escritor e ensaísta Uruguaio. Escreveu mais de 80 livros de poesia, romances, contos e ensaios, assim como roteiros para cinema. Foi deportado, preso, exilado. Soube o peso da luvadeferro da soberana constitucionalidade, do militarismo, da uniformidade de roupa e pensamento. Ele viveu até ano passado, e não acharia graça desse vídeo:

 "criminalização do artista - Como se fabricam marginais em nosso país"


Projetar Brasília para os políticos que vocês colocaram lá foi como criar um lindo vaso de flores pra vocês usarem como PENICO. (Oscar Niemayer)


Higienização pra quem, cara pálida?


(Obrigado Jéss e Val pelas indicações)

Lamentações Post Apocalípiticas - Luis Mangões

Carochas

Réles! Ó míseros seres viscosos
Se divertindo com o esconde-esconde que jogam
Com humanos pés aos quais costumam sucumbir
Inusitada a amálgama cromática
Da eterna pintura tingida
Feita diária luta, e chamoma-na devir...
A razão que subjuga a terra
Lho tornam asco, lho vêem, ânsia
Na ânsia de um golpe de humilhação
Lho fitam – inseto esmagado no chão
Mas o latente triunfo, sempre se soube
Está no desdevanear das brincadeiras humanas
Que, como crianças, despertam seus brinquedos atômicos
Caem gentes! Caem edifícios!
E por entre os escombros
E por sobre pessoas esmagadas
Pisarão irresolutas as baratas.
Por mais inseticida que já se tenha disparado.





Mensagem

Nem o nó
cego
e roto das palavras
indizíveis
nem o dó
da dor pungente
relatam sobre a explosão
maravilhosa
que se faz de mim
constantemente
me polvilhando infinitesimalmente
no nada
que sempre
existiu





*Luis Mangões (Divinópolis) é músico, poeta, membro da banda OitoEu, e integrante do Recital Intervenções na Eternidade Desrítimica, do Grupo Larvas. O recital foi montado especialmente para a Quinta Imaginária na Casa Barkaça, mas há planejamentos de reformular e atracar em outros mares.

Acima de nós, Will Eisner



* Will Eisner conta que ficou impressionado quando soube que Ziraldo, quadrinhista brasileiro famoso e que iria recebê-lo no aeroporto, tinha acabado de sair da prisão. Era 1975 e Ziraldo tinha sido "recolhido" pela ditadura militar brasileira. O mesmo Ziraldo conta que quando conheceu Will Eisner, tremia de nervoso: "Eu estava conhecendo aquele que mais povoou a minha imaginação infantil, e me inspirou a ser o que eu sou hoje".

No povo buscamos a força - Jorge Rebelo



Não basta que seja pura
e justa
a nossa causa.
É necessário que a pureza
e a justiça
existam dentro de nós.

Dos que vieram
e conosco se aliaram
muitos traziam sombras no olhar,
motivos ocultos,
intenções estranhas.

Para alguns deles a razão da luta
era só ódio: um ódio antigo
centrado e surdo
como uma lança.

Para alguns outros era uma bolsa:
bolsa vazia (queriam enchê-la)
queriam enchê-la com coisas sujas
inconfessáveis.

Outros viemos.
Lutar p'ra nós é ver aquilo
que o povo quer
realizado.
É ter a terra onde nascemos.
É ter p'ra nós o que criamos.
Lutar p'ra nós é um destino -
é uma ponte entre a descrença
e a certeza do mundo novo.

Na mesma barca nos encontrámos.
Todos concordam - vamos lutar.
Lutar p'ra quê?
P'ra dar vazão ao ódio antigo?
P'ra encher a bolsa com o suor do povo?
Ou p'ra ganhar a liberdade
e ter p'ra nós o que criamos?

Na mesma barca nos encontrámos.
Quem há-de ser o timoneiro?

Ah as tramas que eles teceram!
Ah as lutas que ali travámos!
Mantivemo-nos firmes: no povo
buscámos a força
e a razão.

Inexoravelmente
como uma onda que ninguém trava
vencemos.
O povo tomou a direcção da barca.

Mas a lição lá está, foi aprendida:
Não basta que seja pura
e justa
a nossa causa.
É necessário que a pureza
e a justiça
existam dentro de nós.

(1971)






*Há um debate sobre a autoria desse texto, pelo qual sua divulgação se mostrou profícua em revelar. Publicamos ele como sendo de Agostinho Neto de acordo com o livro publicado pela "Editora Codecri Limitada" em 1976, Poemas de Angola, contendo apenas poemas atribuídos à Agostinho Neto. Uma leitora veio afirmar, com o que parece, grande conhecimento de causa (vide os comentários) que esse poema é na verdade de Jorge Rebelo, um Moçambicano. Ainda estamos em apuração e quaisquer informações serão valiosas.

Frangos encaixotados - Dani R.F

Penas Vertiginosas

Caminhão na estrada
tortuosa das minas
              das serras
              no campo
             das vertentes
             das vertigens
             dos inconfidentes

um caminhão carregado
de frangos encaixotados
repleto de penas
avoando longe
              na estrada
              das serras
e os frangos
              na espera
              da promessa
              do abate

na estrada das minas
                das vertentes
o cheiro dos frangos
encaixotados
não causa fome...
                da vertigem

Uma frase de caminhão
na estrada
dos inconfidentes
e dos frangos
encaixotados


                  "Deus seja louvado"




*pic: ilustração de Ralph Steadman para o livro "revolução dos bichos"



Casamento

Há dois cômodos brancos na casa
Que separam duas vidas incomuns
e se fazem presente na estranheza do convívio relutante.

No café, a amargura do gosto quente
Mistura-se com o mau hálito do álcool na véspera
Entre um sussurro e um grito
O ódio queima as vésceras do inimigo.

À tarde, a cópula ainda indesejada
Causa violência estomacal.
O outro fica a observar como bicho faminto
As unhas vermelhas que tocam a vulva

Sem palavras e muitos ressentimentos,
Impregnado de imagens eróticas
O casal se sacia com a masturbação
E se vê obrigado a partilhar o alimento




*Dani R.F é poeta e integrante do grupo Maravaia, mais de seus escritos podem ser encontrado no blog Suburbana mente.

Aos Pais - Gentileza Gera Amorrr Gera Gentileza



Quadras ao gosto popular - Fernando Pessoa

No dia de S. João
Há fogueiras e folias
Gozam uns e outros não
Tal qual nos outros dias.

***

Puseste a mantilha negra
Que hás-de tirar ao voltar.
A que me puseste na alma
Não tiras. Mas deixa-a estar!

***

Deixas-te cair a liga
Porque não estava apertada...
Por muito que a gente diga
A gente nunca diz nada

***

O papagaio do paço
Não falava - assobiava.
Sabia bem que a verdade
Não é coisa de palavra.

***

Rezas a Deus toda noite
Pedindo não sei o que
Se rezasses ao demónio
Calcularia o que é

***

Duas vezes jurei ser
O que julgo que sou,
Só para desconhecer,
Que não sei para onde vou


*** *** *** *** ***

*pic: Van Gogh

Poema - Afonso Henques Neto

A paisagem não vale a pena.
Pesa dizê-lo assim tão duramente,
mas o que eu posso fazer contra os mascarados
que penetram os altos muros
e agora coabitam os aposentos desolados?
Já não vale a pena a manhã.
Os embuçados chegaram em surdina
e foram destroçando todos os pilares,
todas as primaveras, as lúcidas esperanças,
vultos tão horrendos que paralisaram o dia.
A noite não significa mais nada.
As casas dormem e não significam mais nada.
O vento cortou-se em mil fatias de desespero.
Que a dimensão canta além da treva,
a face repousada, os olhos claros?

Ação de despejo contra 300 famílias em Itabira (MG)

Chegou ao Grupo Larvas uma atrocidade que está acontecendo em Itabira. Ao ler o texto a seguir vão perceber o quanto os valores em nossa sociedade estão invertidos. Não há como não se indignar com o acontecido. O texto foi enviado por Rafaella Dotta colega de luta, de idéia e de militancia dos Larvenses, preparem o estômago pois o que está por vir não é das mais tranquilas:

Como prediziam textos publicados em diversos sítios da internet, no dia primeiro de Agosto de 2011 concretizou-se o despejo de 296 famílias de uma comunidade na cidade de Itabira, Minas Gerais. Um ofício enviado pelo Ministério Público Federal ao Governo do estado exemplifica a irregularidade da ação: um processo de despejo não pode resultar em pessoas e famílias desabrigadas.



Despejo da comunidade Carlos Drummond em Itabira

Há 72 dias manifestantes estão acampados em frente à prefeitura de Itabira, Minas Gerais, reivindicam maior atenção à comunidade de Carlos Drummond. O bairro passa por um processo de despejo anunciado oficialmente no dia 24 de Maio e que tinha como prazo máximo o primeiro dia de Agosto. O acampamento em frente ao prédio público intencionava pressionar o governo municipal por uma renegociação em que fosse garantido o direito à moradia para a população de Drummond. Propostas iniciais rejeitadas, restou a preocupação com a situação do pós-despejo, que começa com sérios problemas.
Desde o ano 2000 o bairro Carlos Drummond foi sendo ocupado por famílias que, de acordo com cadastro da Assistência Social, em 15 de Julho de 2011 totalizavam 296 com renda de zero a três salários mínimos. O terreno, que há quatro décadas se encontrava em desuso, é de propriedade da família Rosa e sua reintegração foi requisitada pela primeira vez no mesmo ano do início da ocupação. Porém, através de um requerimento o advogado dos proprietários apresentou desistência de continuidade do processo. Novamente aberto em 2007, tramitou até Março deste ano, quando foram extintas todas as formas possíveis de protelação e a ordem de despejo foi dada.
Diversos movimentos sociais, líderes religiosos e associações profissionais ofereceram ajuda aos moradores de Drummond, tanto em textos de apoio, como por meio de ações. Destaca-se a atitude de Padre José Geraldo que manteve um jejum de 13 dias pedindo maior atenção do poder público. “Iniciei o jejum para sensibilizar as autoridades locais a fim de que façam alguma coisa no sentido de dar segurança a essas famílias, garantindo, ao menos, uma área em que elas possam reconstruir suas casas.” [1]
O Brigadas Populares e Dandara (ocupação urbana de Belo Horizonte), também se disponibilizaram, tanto para uma possível organização de resistência quanto para garantir que a desocupação fosse realizada de forma pacífica e justa. A população, recebendo dos meios de comunicação da cidade instruções de deixarem suas casas antes que a polícia colocasse em prática o despejo compulsório [2], que poderia e provavelmente culminaria em violência, não optou pela resistência coletiva. A ação de despejo estava marcada para o dia 1º de Agosto. No entanto, no dia 28 de Julho, quinta-feira, as famílias começaram a deixar suas casas voluntariamente.
Ainda assim a presença da polícia foi massiva no dia 2 de Agosto, terça-feira, data máxima para os moradores se retirarem do local. Foi planejada a utilização de 400 homens para a ação. Estavam presentes a Polícia Militar com batalhões especializados de Ipatinga e Belo Horizonte, o Choque da Polícia Militar, o Grupo de Ações Táticas Especiais (GATE) e um helicóptero para reforço aéreo. À essa altura apenas cinco famílias permaneciam em suas casas à espera da liberação do caminhão para a mudança. Nenhuma delas ofereceu resistência.
De acordo com ofício enviado pelo Ministério Público Federal à Prefeitura de Itabira e ao Governo do Estado [3], o despejo infringia vários acordos internacionais que priorizam o cumprimento de direitos humanos universais. Na ação policial, foram também desrespeitados tratados como o bloqueio de alguns observadores que pretendiam garantir a não utilização de violência contra os moradores, assim como auxiliar no carregamento dos caminhões.
Depois do despejo, os problemas caem onde era planejado
 
O bairro se transformou em uma cena literalmente arruinada, com as construções já sem telhas, janelas e mobília. A única movimentação restante era dos grupos policiais que passarão a fazer a segurança do terreno, para que não possa ser alvo de uma nova ocupação. Assim como permaneciam policiais também na avenida Mauro Ribeiro, na porta de um prédio recém construído, de propriedade do atual prefeito João Izael.
Alguns moradores foram para casas de parentes, outros para a rua e parte deles seguiram para abrigos organizados pela prefeitura. A seleção de quais famílias seriam alojadas foi feita através do cadastro no programa Minha Casa Minha Vida. A estas, que precisaram comprovar uma renda mínima, foi garantido o abrigo. As demais não foram enquadradas como responsabilidade do governo municipal. Houve também a tentativa de distribuição de “bolsa-aluguel”, que se mostrou ineficiente pela falta de disponibilização repentina de tamanha quantidade de imóveis para locação.
No primeiro dos abrigos, o galpão Fio de Ouro, foi construído uma espécie de labirinto de madeirite, onde cada cubículo corresponde a um ‘apartamento’ de cozinha e dois ou três quartos. O galpão tem 10 banheiros, 40 famílias e um sistema de vigilância fabril, onde o coordenador tem ampla visão superior de todos os ‘boxes’ e pessoas.
O mesmo não acontece no ginásio do Gabiroba. Lá, as famílias foram alojadas em uma quadra sem nenhum tipo de divisão e possuem dois banheiros para 50 famílias. Pretende ser uma situação de uma semana até que no Ginásio Brazuca seja instalado a mesma estrutura do Fio de Ouro e o abrigo se transfira.
O intuito é de que essa situação permaneça por aproximadamente um ano, até que o Governo Federal tenha condição de englobar no programa Minha Casa Minha Vida as 90 famílias. O acampamento em frente à prefeitura segue firme, embora possa ser também “despejado” a qualquer momento. A administração municipal já havia requisitado a retirada dos manifestantes, mas perdeu na justiça e foi permitida a ocupação da praça enquanto o despejo da comunidade não acontecia.

À firmeza dos militantes que lutam agora por alojamentos dignos e pela obrigatoriedade do poder público conceder, como prometido, terreno e material para a construção de moradias para os que acaba de desabrigar.
Rafaella Dotta
Estudante de Jornalismo da Universidade Federal de São João Del Rei

[1] Parte de entrevista do Padre José Geraldo de Melo, vigário episcopal da Região Pastoral I da Diocese de Cel. Fabriciano e Itabira-MG, concedida a IHU On-Line (Instituto Humanitas Unisinos - IHU, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, em São Leopoldo, RS), publicada no dia 21/06/2011.

[2] Como prova uma declaração dada à imprensa pelo comandante do 26º Batalhão de Polícia Militar, tenente-coronel Edvânio Rosa Carneiro, que comanda a região de Itabira: “Estamos com todo o planejamento pronto”. E ainda, "espera que os moradores saiam por livre e espontânea vontade. Se as famílias não saírem, a PM vai agir imediatamente após o fim do prazo", publicado em 01/06/2011.

[3] As remoções e os despejos forçados são considerados ilegais quando realizados com o uso de força física ou violência (…) Nenhuma remoção deve ser realizada sem o acompanhamento de funcionários públicos devidamente identificados, que devem efetivamente zelar pela segurança da população que está sendo removida; Observadores independentes devidamente identificados devem estar presentes para garantir que não sejam utilizadas força, violência ou intimidação; (...) A remoção não pode: fazer uso da violência e da intimidação, em nenhuma circunstância; Ser realizada de forma discriminatória ou replicar padrões discriminatórios; Resultar em pessoas e famílias desabrigadas; Destruir os bens das famílias afetadas; Ignorar a situação específica de mulheres e grupos em condição de vulnerabilidade (idosos e crianças, assim como outros). (grifo nosso)

Mais amor - Wagner Vieira

LOVE, LOVE, LOVE

                   Fui ao nosso desencontro. A manhã estava fria e bonita (do jeito que eu gosto). Com pouco uma nuvem arredou dando passagem ao Sol que invadiu a braquiara e lambeu o sereno de uma forma tão erótica que eu fiquei de cara.
                   Então eu subi num toco de eucalipto, virei a cara pro oriente e, com as mãos em concha em torno da boca, berrei: LOVE, LOVE, LOVE! Meu grito esbarrou na gargante do Eco, que rosnou de bolta: MEIA, AMEI, AMEI-A!
                   EU devo ter ficado nesse transe um bom pedaço de tempo, até que me dei conta que você não viria. Desci o degrau do meu delírio, desaprumei o corpo e voltei, soturno, para o meu quarto minguante.
                   Quando cheguei me disseram que você havia ligado. Sorri comigo mesmo e fiquei alegre - eu já estava pensando que você nem tinha ligado.




SANTADOIDA

Te beijo com a doçura que é própria só do mel
Estou para você como o dedo está pro anel




*Wagner Vieira é poeta, editor e jornalista. Faz parte da Ong LESMA que trabalha com Cultura e Meio ambiente na região de Queluz de Minas. Tais poemas foram tirados do livro "O amor visto da ponte"


Love

O ônibus na corda
do pião

O meu amor
de você

Noutro beijo
todo dia

Meu amor
da sua vida...



*Gustavo de Oliveira tem 5 anos e está cursando o primário. É poeta, cientista maluco e criador de espécies esquisitas que aparecem em seu jardim, de preferencias Larvas de cores maravilhosas. Seus ultimos experimentos provaram como uma maluquice científica pode fazer uma grande sujeira no quintal; Embora seja mais livre que dez passarinhos diz que sua vida "É uma vontade que leva à outra..." Está ligado em tudo que importa e por isso é majoritariamente distraido. O único problema de sua carreira de Gênio Mirim dominador do mundo é um contrato vitalício de "irmandade" que tem com Ester de Oliveira, uma produtora super rígida, coruja e atenciosa.

Verbetes do Guru do Meyer

                                    Tira de Laerte Coutinho


Ateísmo:
*O sujeito que me fará acreditar na imortalidade da alma aidna está pra ressuscitar.
*O ateísmo é uma espécie de religião em que ninguem acredita.

Ativistas:
*Os ativistas precisam lembrar que nem todo movimento é pra frente. E nem toda avanguarde é prafrentex.

Brasília:
*Brasília; o maior crime político cometido contra o Brasil.
*Brasília é o desnecessário tornado irreversível.
*Brasília prova; os países tambem se suicidam.
*Burocratas revolucionários, salomões em seis vias, tecnocratas evangiladores, seguranças de esquerda.

Burocrata:
*No capitalismo ou no socialismo / A nata nada./Quando meu filho crescer/ Vai ser um burocrata.

Comunismo:
*Eu não entendo por que essa perseguição ao comunismo. A constituição não permite a liberdade de culto?
*Os comunistas são vermelhos. Os conservadores têm uma cor um pouco mais apaziguada.
* Têm razão as autoridades militares quando denunciam a infiltração comunista na imprensa. Os comunistas se infiltram - é sabido - em toda parte. Dizem que há até alguns infiltrados no Partido Comunista.

Constituição Brasileira:
* Todo ser humano tem direito à morte, á prisão e à busca da infelicidade.

Deus:
*A voz do povo é a voz de Deus. Mas Deus, sempre que fala, manda o povo calar a boca.
*Deus é brasileiro e o Demônio americano
*Deus existe. Mas é ateu.
*Deus existe. Mas não é full time
*Estranho: os capitalistas acreditam em Deus. Os comunistas não.

Ford:
*Todo mundo fala em Marx como grande revolucionário e ninguem fala em Ford, muito mais revolucionário, o homem que fodeu o mundo em nosso século. Criou o automóvel como transporte individual, obsoleto na origem. Mudou as cidades, transformou o mundo numa faixa de tráfego, em fábricas de asfalto, viadutos, guerras de petróleo - uma merda! Mas tudo baseado numa verdade absoluta: "todo homem anseia por conhecer algum lugar distante. E assim que chega lá seu primeiro desejo é voltar"

Governo:
*As principais formas de governo são as ruins e as muito piores.
*Toda tentativa de governo é um ato de depravação.
*Toda a busca de civilização durante 10 mil anos resultou apenas na criação de sistemas de governo através dos quais 5 bilhões de pessoas são entregues nas mãos de 5 centenas de déspotas vaidosos e primários.

Jornal Nacional:
*Uma hecatombe rompe o ventre da terra em São Francisco. Os locutores da TV globo se embonecam. Há mortos sem sepultura, cidades destruidas pela guerra, ondas de horror e desespero. Os locutores da TV Globo estão de ternos cada vez mais coloridos. Um edifício pega fogo, pessoas se atiram de janelas. Os locutores da TV Globo põem bobs no cabelo e blush nas faces. Um gatinho é salvo num galho de arvore por um bombeiro negro. Os locutores da TV Globo sorriem humanamente.

Luta:
*É preciso primeiro, combater nosso próprio lado.

Quorum:
*Quorum é a incapacidade individual multiplicada pelo número de pessoas presentes.

Revolução:
*Assim como ninguem / faz um omelete / Sem quebrar os ovos / Ninguem faz uma revolução / Sem destruir os povos.

Rock in Rio
*Pelo amor de Deus, no próximo Rock in Rio, liberem a droga e proíbam a música.   



___Verbetes de Millôr Fernandes tirados do livro
"A bíblia do Caos"
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