domingo, 4 de setembro de 2011

Sobre a indústria do antissemitismo e a manufatura da revolução cotidiana

Me deparei em outra dessas tardes quentes do méxico, com um documentário sobre a questão do "antissemitismo" hoje, nos EUA, em Israel e no mundo. Pra quem, como eu, não está familiarizado com o termo, pode-se entender que é, basicamente, uma homofobia contra judeus. Para nós brasileiros mineiros estudantes desinteressados poetas fudidos revolucionários de facebook etc.. parece estranho falar em judaísmo e intolerância etc.. parece aula de história, coisa de filme (e cada filme e novela que tem na "vida real"):



Realmente, não vejo no Brasil esse tipo de debate. Mas vejo o mesmo germe ideológico, o mesmo vírus memético sendo repetidamente propagado em diversas questões que tem sido debatidas por aí, cada vez mais, especialmente no que tange aos direitos dos homossexuais, negros, mulheres, indígenas, sem terra e a grande massa das ditas "minorias" das terras auriverdes e mundias.

Esse vídeo fala sobre a apropriação de um passado catástrófico para a perpetuação de toda uma milionária fábrica de dinheiro, e ainda, a manutenção de novos genocídios e invasões muito discutíveis como a questão que envolve o estado de israel x palestina.

Isso me lembra, inclusive, debates sobre a ditadura militar, a dilma, o serra, alguns conselheiros da UFSJ e todos que sofreram na mão da ditadura ou lutaram pelas "diretas já". Nós temos que respeitar o sofrimento do passado, aprender com ele, lutar contra a possibilidade de novas catástrofes sociais. Isso me remete a um texto que li antes de ver o vídeo, uma entrevista com o filósofo Slavoj Zikek, onde ele diz:

"Então concordo que há um perigo das ideias, mas acho que o dia seguinte é a parte mais importante das revoluções. Não me sinto fascinado por esses momentos de grande mobilização onde todos estão nas ruas, juntos, pedindo mudança. Isso sempre me lembra da França, onde todo conservador hoje, a começa por Sarzoky, diz: “claro, em 1968 eu estive nas barricadas”. O que me interessa é o dia seguinte."

Não tenho que falar muito pra gente fazer o paralelo Brasil x Ditadura - França x maio de 68 - Israel x Holocausto - Poetas e Músicos Revolucionários e Criativos x Ostracismos Criativo e Autovenda à Grandes Editoras e Gravadoras - "Diretas já" pós ditadura x "Diretas já" na UFSJ etc..

Simpatizei com o rapaz que fez o documentário. Conseguiu unir bem os pontos, mostrar - não com uma pretensa imparcialidade - as muitas faces de mais uma, das muitas, "indústrias" do medo, do terror.

Eu não tenho conhecimento profundo nesse assunto, mas pra mim ficou claro como a questão da intolerância é revisitada, apropriada, acoplada, utilizada, explorada de diversas formas em diversos lugares, sob distintas máscaras, argumentos, justificativas.

Gostei do final, ele dizendo em se olhar pra frente, numa imagem de estrada, caminho, e depois céu rubro de um crepúsculo para além das grades do campo de extermínio.

Coisas como essa me impulsionam a estar firme num pensamento que a nossa luta enquanto educadores, pensadores, artistas, cidadãos, acadêmicos - pessoas, enfim - está alicerçada num caminho que vai ao encontro de uma cultura que saiba entender diferenças. Aceitá-las. Conviver com elas.  Reconhecer a Alteridade, o Outro. Olhar para o passado para compreender e evitar catástrofes, e não justificar e germinar mais ideologias segregadoras.

E isso é menos uma postura clichê, cristã, moralista; que uma maneira de caminhar no sentido de novas possibilidades de aldeia e de mundo. Principalmente, uma maneira de olhar nos olhos da esfinge dos nossos tempos, e evitar a nossa destruição, que, como vemos, não deixa de nos rondar...


Pra não dizer que aqui não somos legalistas e constitucionais, vai aí uma proposta estatutária do nosso Tiago de Melo, que sempre primou pela raiz para sustentar a água, a brisa, a sombra, a manhã, o amanhã:
(poesia?)


 ESTATUTO DO HOMEM
   (Ato Institucional Permanente)

  Artigo I
 
   Fica decretado que agora vale a verdade.
   agora vale a vida,
   e de mãos dadas,
   marcharemos todos pela vida verdadeira.
 
 
   Artigo II
 
   Fica decretado que todos os dias da semana,
   inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
   têm direito a converter-se em manhãs de domingo.
 
 
   Artigo III
 
   Fica decretado que, a partir deste instante,
   haverá girassóis em todas as janelas,
   que os girassóis terão direito
   a abrir-se dentro da sombra;
   e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
   abertas para o verde onde cresce a esperança.
 
 
   Artigo IV
 
   Fica decretado que o homem
   não precisará nunca mais
   duvidar do homem.
   Que o homem confiará no homem
   como a palmeira confia no vento,
   como o vento confia no ar,
   como o ar confia no campo azul do céu.

 
           Parágrafo único:
 
           O homem, confiará no homem
           como um menino confia em outro menino.
 
 
   Artigo V
 
   Fica decretado que os homens
   estão livres do jugo da mentira.
   Nunca mais será preciso usar
   a couraça do silêncio
   nem a armadura de palavras.
   O homem se sentará à mesa
   com seu olhar limpo
   porque a verdade passará a ser servida
   antes da sobremesa.
 
 
   Artigo VI
 
   Fica estabelecida, durante dez séculos,
   a prática sonhada pelo profeta Isaías,
   e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
   e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.
 
 
   Artigo VII

   Por decreto irrevogável fica estabelecido
   o reinado permanente da justiça e da claridade,
   e a alegria será uma bandeira generosa
   para sempre desfraldada na alma do povo.
 
 
   Artigo VIII
 
   Fica decretado que a maior dor
   sempre foi e será sempre
   não poder dar-se amor a quem se ama
   e saber que é a água
   que dá à planta o milagre da flor.
 
 
   Artigo IX

   Fica permitido que o pão de cada dia
   tenha no homem o sinal de seu suor.
   Mas que sobretudo tenha
   sempre o quente sabor da ternura.
 
 
   Artigo X

   Fica permitido a qualquer pessoa,
   qualquer hora da vida,
   o uso do traje branco.
 
 
   Artigo XI
 
   Fica decretado, por definição,
   que o homem é um animal que ama
   e que por isso é belo,
   muito mais belo que a estrela da manhã.
 
 
   Artigo XII
 
   Decreta-se que nada será obrigado
   nem proibido,
   tudo será permitido,
   inclusive brincar com os rinocerontes
   e caminhar pelas tardes
   com uma imensa begônia na lapela.

 
           Parágrafo único:
 
           Só uma coisa fica proibida:
           amar sem amor.
 
 
   Artigo XIII
 
   Fica decretado que o dinheiro
   não poderá nunca mais comprar
   o sol das manhãs vindouras.
   Expulso do grande baú do medo,
   o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
   para defender o direito de cantar
   e a festa do dia que chegou.
 
 
   Artigo Final.
 
   Fica proibido o uso da palavra liberdade,
   a qual será suprimida dos dicionários
   e do pântano enganoso das bocas.
   A partir deste instante
   a liberdade será algo vivo e transparente
   como um fogo ou um rio,
   e a sua morada será sempre
   o coração do homem.






 
  Thiago de Mello
Santiago do Chile, abril de 1964
 


Agradeço a Luiz Felipe Martins Candido pela indicação.





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