Uma peça bem fadada

Começa no auge, no meio do espetáculo, com uns pontos de exclamação do depoente. Alguns soltam uns bocejos em sinal de aprovação e outros continuam bebendo em copos descartáveis. Aparentemente nem todos estão ali para ouvir a peça bem fadada.


íssimo realce ardente
virulentas pompas adjetivadas
olha o seio catereto de hipérbole
num sofregue com as palmas
exclama só no time
Flick


Ninguém tosse no decorrer da peça bem-fadada, eles deixam o pigarro e o espirro pra missa de domingo. Como não há missa de domingo, o catarro é sempre adiado.


O íssimo chegou e resolveu parar pra beber de graça.

Francis Bacon

Movimento Vira-Lata (Altamente Recomendado)


Equivocos - Lucas F. L

1º Equivoco
 
O tempo seco
“cuidado
qualquer inflamação na garganta pode te levar a óbito”

Mas fique calmo
consulte seu plano de saúde

A cidade
um deserto
respiração
poeira

Quem passa pela praça
escuta apenas ciganas rogando pragas

“as mãos estão todas iguais”

No termômetro
38º
 2º Equivoco

A pipoca jogada ou acidentalmente perdida
é disputada num lance de dados por pombos
e por seres cinzas enrolados em cobertores.
Esses por sua vez
evitam o mínimo movimento durante as noites,
qualquer gasto de gordura pode ser fatal
...
O SENSACIONAL de ontem
encontra-se nas mãos de um barbudo sensato

papel vagabundo
traçando o exagero
e a extravagancia

logo a frente
motoristas que passam por uma moto sem a roda da frente
riem do poste sacana

muletas pra quem te quer!
3º Equivoco

Eu sei...
é mais uma impressão óbvia
mais uma chateação escrita

mas

é nesses pedaços providos de domingos mal dormidos
que percebo qual é o tipo da força humana

Presumo que...
essa força
é a mesma do capim gordura sob o sol
praga invasora de terrenos baldios
que não se resolve com poda
ou guilhotina

Você envelhece e morre
e a humanidade insiste no erro
sufocando flores silvestres
e abrigando em sua vegetação rasteira
um mundo de carrapatos

 
 pic's: Minotauros ilustrados por Picasso

O Cemitério dos Vivos (trechos)



Essa questão do álcool, que me atinge, pois bebi muito e, como toda gente, tenho que atribuir as minhas crises de loucura a ele, embora sabendo bem que ele não é o fator principal, acode-me refletir por que razão os médicos não encontram no amor, desde o mais baixo, mais carnal, até a sua forma mais elevada, desdobrando-se num verdadeiro misticismo, numa divinização do objeto amado; por que – pergunto eu – não é fator de loucura também?

Por que a riqueza, base da nossa atividade, coisa que, desde menino, nos dizem ser o objeto da vida, da nossa atividade na terra, não é também a causa da loucura?

Por que as posições, os títulos, cousas também que o ensino quase tem por meritório obter, não é causa de loucura?

...

Eu sou dado ao maravilhoso, ao fantástico, ao hipersensível; nunca, por mais que quisesse, pude ter concepção mecânica, rígida do Universo e de nós mesmos. No último, o fim do homem e do mundo, há mistérios e eu creio neles. Todas as prosápias sabichonas, todas as sentenças formais dos materialistas, e mesmo dos que não são, sobre as certezas da ciência, me fazem sorrir e creio que este meu sorriso não é falso, nem precipitado, ele me vem de longas meditações e de alanceantes dúvidas.

Cheio de mistério e cercado de mistério, talvez as alucinações que tive as pessoas conspícuas e sem tara possam atribuí-las à herança, ao álcool, a outra qualquer fator ao alcance da mão. Prefiro ir mais longe...






O que há em mim, meu Deus? Loucura? Quem sabe lá?

Lima Barreto
Escreveu esse livro/relato internado no Casarão da Praia Vermelha ( Hospício Nacional ), do natal de 1919 a fevereiro de 1920, vindo a falecer dois anos depois

Vídeos da semana: bravos e politicamente engajados

Indicando os videos mais interessantes da semana postados pelo perfil do Larvas no facebook, videos postados recentemente e claro que com o nosso padrão convencional de qualidade.

Aí vai.


A filosofa Marilena Chauí fala de uma maneira cativa e carismática sobre o papel "ético" da classe média. Esse vídeo é de antes de ontem (29/08) e foi filmado durante o debate "Ascensão Conservadora" que aconteceu na USP dia 28/08 e foi produzido pelo Coletivo dos estudantes em defesa da educação pública. 

É de chorar de rir e arrepiante.
Vale muito à pena.




O próximo video é do mês passado. Um show quase inteiro da banda divinopolitana Declinio Social no novo espaço underground Studio Bar. Abraços a todos que fazem aquela cidade pulsar de maneira impressionante. A energia aqui é pura e se você gosta de punk, de protesto, ou das coisas que postamos aqui pode sacar que é a revolta em seu estado puto, aliás, puro.



Então é isso
Dê feedback, se quiser...




Os Fernandes: como um deus despedaçado que renasce numa flor

Às vezes se vai dormir e um sino toca (ou o Gustavo Lima no vizinho), a imagem de um santo triste (ou o Jô na TV), a aridez da cruz, ou o escuro mesmo (e seus fantasmas) nos encara.
Para alguns, a (quase) convicção de que deus não existe, e que devemos levar isso até as últimas consequências. Nada. Nem aqueles bonitões da Grécia, nem os naturebas Célticos, nem os sedentos por sangue Astecas. Se bobear, nem o Lula, o Reuni e o Bolsa Família. Nem Marx. Se pá, nem a grana, meu camarada. Corre atrás não pra ver.

E é aí que tá uma grande questão pra você, desamparado até pela divina cultura de massa que de rodízio em rodízio já não desce no seu estômago. Não. Não quer nem se vestir de preto mais, berrar a sua revolta com o mundo, nem se adequar, nem entrar na fila e financiar uma imagem no banco?

Tudo bem: daí vem uma fila de clichês, desde o universiotário cult bacaninha que adora agitações culturais, até o comunista que almeja entre uma maconha e outra, lutar com os movimentos sociais em prol dum mundo melhor pra todos, e que morram os burgueses, passando pelo médicoengenheiroadvogado que só quer fazer a sua e dançar a dança da vez, com seu open bar e namorada bonita. E dá pra nadar no mar do consumir consumir consumir sumir ir. Que possivelmente é o mais fácil que tem por aí. E postar tudo no facebook, claro, que ninguém conversa por cima do muro mais.

É tanta coisa que cansa. É tanta coisa. É tanta. É.

O novo não nos choca mais. Nada de novo sob o sol. O que existe é o mesmo ovo de sempre, chocando o mesmo novo.

Ainda resta, claro, os antidepressivos, a bebida, a droga, o amor, o mundo pra conhecer e as grandes obras da humanidade. E uma ou outra pessoa legal pra gente se iludir.

Felizmente, no mar do mesmo de sempre, vez ou outra aparece algo que te faz olhar pra frente, algo diferente, algo consistente. Que te faz lembrar de quando você lê aquele grande livro da sua vida, ou quando você ainda tinha saco pra adorar algum artista, na falta de deus, ou adorar alguma namorada, na falta dum artista, ou adorar uma bebida, na falta de uma namorada. Tipo dar um tapa nas costas da vida.

Felizmente, tive o prazer de con viver, ouvir e assistir Os Fernandes, e sentir que aquela coisa, que faz a gente pensar que vale a pena, mesmo assim. Que isso não é masturbação. Não é feito com a cabeça, nem com o umbigo. É feito com riso, e calo na mão.

Apesar de todo o mito falido, taí de novo, o verbo e a criação.

Foi engraçado olhar, em cada apresentação deles, num coreto de praça em Campanha, depois da missa, chovendo, e ver chegar um bando de menininhas do grupo de jovens católicos berrando o “Baião do LSD”, ou a academia de letras de Caxambú olhando os malabares e o som circense na praça e pensando  sem pensar : “meu deus, por quê me abandonastes?”, ou numa baladinha universitária qualquer, com todo mundo bêbado e ouvindo que “não acredito num deus que não saiba dançar”.

No frio louco de Barbacena, entre as pedras de São João, berros buscam voz.
Algo como os mamonas querendo falar (assassinar a) poesia.

Contra expectativas, no meio da serrania uma lesma sobe as ladeiras de Ouro Preto.
Resta saber se o tempo e o esquecimento hão de esmagá-la antes do topo.
Ou se a sorte (e o braço) hão de criar caminhos, no meio do rodamoinho.

Boa sorte, amigos.


Ainda assim, cantem, como se fosse verdade – a esperança.




A poesia foi fotografada pelada!

Pelada!

Homenagens à Itamar Assumpção

That's a special night
(à Itamar Assumpção)

tenho a certeza convicta de que em seus abdomêns
já há a fria e pinicante sensação de que algo de terrível vá acontecer
ao anoitecer a lua parecia uma calota de caminhão
pouco tempo depois os planetas do sistema brilhavam pacas não é?
e lembrou-se que é de madrugada que as máscaras caem
estrelas cadentes cadenciaram por alguns minutos
e uma organização espacial libertou os 3 seres transparentes
que uniram os espíritos
que cantam que voam que tocam que andam
e não poderia faltar o
epirito de porco (e o kiko?)
afinal qual é o problema de ser só um pouquinho filho da puta, hein?
Nosso padroeiro celestial, vestindo armaduras coloridas com seus
dreads insanos procurando farofa e cachaça surfiu
a sua pele era negra como a própria noite
e não havia como separar a escuridão de si próprio
e se antes as luzes que compõe a madrugada brincavam
o breu agora era total 
uma voz feminina atráz do coelho
que além de entrar no buraco também se chama Alice grita:

"Ita: Pedra em tupi
Maaaaaaaaaaaaar
que se eleva: Assumpção"*

O Itamar era a ausência da lua
e a escuridão tomou nossos corações


Vinicius Tobias
 *(o trecho é um poema de Alice Ruiz)




*Se essa entidade baixa pode acreditar que ganhou o melhor da noite, o Itamar se torna herói pelos atos, pelos resultados tantos experimentais como populares, é a Vanguarda de 80 em seu máximo exponencial ou melhor segundo ele: "Vanguardinha, que vanguardinha o que?" é o espirito padroeiro de qualquer pensamento de liberdade artística e cultural, ou seja, liberdade de fato: Haja vida pro artista!




 ESTALO

Ainda meio grogue,
sem saber direito
quem era, de que jeito
veio e onde, raios!, estava,
o negão esfregou os olhos
e piscou duzentas vezes,
reconfigurando a visão.

Constatou, um tanto aflito,
que aquele lugar esquisito
não tinha teto e nem chão.
Pensou: “Será isso um sonho?”.
“Mas” – exclamou, ao reconhecer
o bigodudo que acenava pra ele
de longe: “Aquele lá
é o Leminski – morrendo de rir,
o filhadaputa, da minha
enormíssima aflição!”.

Num estalo, compreendeu tudo
e sorriu, já no clima.
foi caminhando, digo, planando
na direção do outro e mandou:
“Licença, meu mano!”
E o Tio Lema,
com pinta de anfitrião:
“Chega aí, Beleléu.
Bom que trouxe o violão”
     
Ricardo Aleixo

Recital: "Intervenções na Eternidade Desrítmica"


1º apresentação do recital "Intervenções na Eternidade Desrítmica" na cidade de São João Del Rei.

Voz: Vinicius Tobias (Murdock)
Bateria: Philippe Campos (PH)
Guitarra: Lucas Ferreira

Velho oeste Again - Janderson Vaz

A espera no saguão é sempre o momento mais difícil. A perna esquerda já não suporta mais o peso da direita. No momento em que descruzo as pernas percebo que agora elas balançam sem parar. Direita, esquerda, direita, esquerda, direita e esquerda.
Agora o movimento é vertical. Cruzo as pernas novamente.
Percebo que a maleta sobre o colo já começa a incomodar também.
A porta continua fechada e a secretária volta e meia é surpreendida pela velocidade supersônica dos meus olhos.
Isso! Ela nunca vai conseguir se esquivar dos meus superpoderes.
Distraio-me e sou surpreendido pela contraofensiva daqueles olhos castanhos, protegidos por escudos de vidro inquebráveis. Ela também tem superpoderes.
Mais uma pessoa chega ao saguão. Vai direto ao ponto, diz que tem um horário marcado. Ele tem um olhar sombrio, pouco cabelo, e suor na palma da mão. Terno sem gravata, colarinho straight. Na mão esquerda confere as horas no relógio, empunha na mão direita uma maleta, onde guarda às escondidas uma Luger P08.
Passa novamente a minha frente, mas assenta-se na fileira atrás.
Nesse momento é preciso muito sangue frio. Nunca olho para trás, isso faz com que o medo mude de lado. A aflição corre por todas as veias do corpo, salta com cada movimento e ruído, para nos olhos. Ai é só esperar, o silêncio será a próxima vitima e você deve estar preparado para todo tipo de pergunta.
Mais algumas pessoas rompem a entrada principal. Vêm de todas as partes do mundo, índios, japoneses, alemães, russos...
Enfim o momento derradeiro, a porta finalmente se abre. Todos os olhares voltam-se para o mesmo local. Um membro da máfia italiana acaba de sair. Ele é saudado pelo pai bondoso.
O pai tem um sorriso largo, anéis de ouro nos dedos, gel no cabelo penteado para traz, sapatos lustrados e roupa fina. Sua voz é doce e aveludada, ouvimos incrédulos sua santa benção:
__ Aguarde que entraremos em contato

Edward Hopper

Calendário Larvas para a semana

Errata: O recital Intervenções na Eternidade Desritmica foi cancelado na ocupação cultural da UFSJ.

Se liga aí galera que o grupo Larvas Poesia vai fazer 2 apresentações esse final de semana em São João.

Relançando o refeito recital Intervenções na Eternidade Desrítmica, apresentaremos abrindo o show pros parceiros do Martelo de Pano!

Esperamos todos no evento.






Coluna Social - Lucas F.L

                              I
           "O peixe morre pela boca"
                 Silvia Alucinógena
                  morre na bocada


                                                                              II
                                                                   Conversas fiadas
                                                                         descasos
                                                                    travestis na ponte


                                        III
                               Sofia macabra
                         a rasgadora de galinha
                               ...entidades...


                                                                            VI
                                                                  Comer toucinho
                                                                    mijar pelo cu
                                                                Poesia de burguês

               V
             Jazz
        é a tua mãe
         de quatro


                                                   VI
                                        O carro estacionado.
                                            No retrovisor
                                            o pardal surta                                          VII
                                                                                                  Feridas na pele
                                                                                                  insulina na coxa
                                                                                                   Te ligo depois

                         VII
           Na faixa de pedrestes
               duas estudantes
            mascam bubballoo's

                                                                              IX
                                                                  Em Delfim Moreira
                                                                     o sino badala
                                                                       hipocondria

                        X
     Neo-Entregadores de gás
                 explodem
        a Rua Francisco Sales


Foto da semana:





                        XI
               A velha escura
           amanhece na janela
     Sonhou com pés de mamonas



                                  








*pic: Quinten Metsys


                                            XII
                            Senhoras Rezando o terço

                                   "Porta aberta"

                           Perseguido por vira-latas
                              um porco aos berros          
                            invade a sala do casarão




                                                                           
XIV
Para-choque do ônibus,
Rotatória,
Carros em chamas...











Iluminação - Laerte


Ensaios Horizontais - Vinicius Tobias

        Amor

         o intimo indica que não há nada mais bonito que a paisagem iluminada da cidade
         e que nada pode me deter nesse mundão de deus em que reproduzimos o universo
                                                                                        [com tanta perspicácia
         passando pelos altos e avistando o baixo, o alto, o céu estrelado sem luar
         o chão estrelado sem estrelas
         para o emprestimo eu disse, "reunião"
         massa e esses pontinhos de luz me fazem indestrutívekis e assiméctricos

         volta ao cárcere psicológico da parede
         o imperativo máximo limitador do horizonte...
         para chegar em casa passo sempre por uma rua
         e há o prólogo...
         4 quebra molas duros de morrer

         eu os apelidei:

                    ..........pode...........tirar......................ocavalinho....................dachuva.........







      Ele e ela
  
              é mais fácil olhar pra cidade 
              do que olhar pro rio
              embora ela - a cidade
              como ele - o rio
              estejam envoltos por matas
              gerando a imagem metafórica de cílios
              mas por ser pontos luminosos e ter cílios
              confundem-na com olhos
              e acha-se que há mais dela que dele
              
              no entanto ela é abastecida
              não só fisicamente (...)
              por ele

2 Sonetos de diOli











Tudo bem se 1 destas crianças for uma criança medonha - Yi Sáng

2 Poemas da Série "Olho de Corvo" de YI SÁNg, ícone da literatura Coreana



                                        Poema N.1



     13criançascorrempelaestrada.
     (Quantoàruaéapropriadaumasemsaída.)
  
     A  1 ª   criançadizqueestácommedo.
     A 2ª criançatbdizqueestácommedo.
     A 3ª criançatbdizqueestácommedo.
     A 4ª criançatbdizqueestácommedo.
     A 5ª criançatbdizqueestácommedo.
     A 6ª criançatbdizqueestácommedo.
     A 7ª criançatbdizqueestácommedo.
     A 8ª criançatbdizqueestácommedo.
     A 9ª criançatbdizqueestácommedo.
     A10ªcriançatbdizqueestácommedo.

     A11ªcriançatbdizqueestácommedo.
     A12ªcriançatbdizqueestácommedo.
     A13ªcriançatbdizqueestácommedo.
     As13criançassãoumasomasódecriançasmedonhasecriançascommedo.
     (Eraatépreferívelquenãohouvesseoutrosfatores.)

     Tudobemse1destascriançasforumacrianaçamedonha.
     Tudobemse2destascriançasforemcriançasmedonhas.
     Tudobemse2destascriançasforemcriançascommedo.
     Tudobemse1destascriançasforumacriançacommedo,

     (Mesmoumaruaabertaseriatambémapropiada.)
     Tudobemtambémseas13criançasnãocorrerempelaestrada.




                                     Poema N.3



     A que le qu e bri ga é  en fim a que le que  bri ga va e a que le
     que  bri  ga co s tu ma va tam  bém  ser um  que não  bri ga e
     por is so se a que le que bri ga  qui ser as sis tir a u ma bri ga
     bas ta fa z er o se guin te  :  ou o qu e não bri  ga va as sis te a
     u ma  bri ga ou  o que não bri ga  as  sis  te a u ma bri ga ou a
     in da o  que  não  bri  ga va ou o que não briga as sis te a u ma
     não bri ga.
    
    
    

*estatua da ilha de Jeju, coréia do sul

** Acusado de "delírios de um demente", a sua poesia - O Olho-de-Corvo, publicado em 1934 - foi tão repudiada quanto aplaudida num meio literário em que o engajamento era um imperativo, quando não ideológico, cultural, para um povo que vivia a espoliação da pátria pela ocupação japonesa (1910-1945). Qualificações como "aberração", "demência", disputavam com "genialidade", "excepcionalidade', e os seus admiradores eram tidos como "insolentes pretensiosos" que fingiam entender aquilo que era incompreensível. A comunidade crítica, estatelada, não podia ignorá-lo diante de uma parcial acolhida calorosa, e nem por isso estava pronta para recepcionar com apreço uma obra tão anômala . Somente com a publicação de contos, dois anos mais tarde, em 1936, é que Yi Sáng se faria entender um pouco melhor, obtendo uma certa simpatia mesmo de seus críticos. Mas sobrava-lhe muito pouco tempo. em apenas um ano estaria morto.  (Yun Jung Im) 

GERAIS AMARGAS - Vinícius Macedo


Polícias fortes

Educações em baixa

Bombas e Borrachas 
na Liberdade

Voltamos ao tempo do 
CALABOCA! 


PROPAGANDA


Seria a pele parede?

Então exponho sem medo minha fratura

Guardo no bolso da calça um poema

Móveis palavras sem modos
Trabalho fora da estante

Minha empresa?
apenas papel

Instrumentos?
voz
caneta
som
movimento
 

 



*Libertas que eu não sou barroco.



Satélites do Kaos com K - Jorge Mautner

Antenas

O artista cisma
Que é marginal
Mas não sabe
Que o que lhe cabe
É o maior problema
De ser um Mandarim do sistema
Lider antena
Igual
Talvez abaixo (eu acho)
Apenas do cientista
Na verdadeira lista
De impotãncia
Na sociedade da suprema ãnsia
Da ganância e extravagãncia
E o terrivel já começa na infância
O bebê nasce no hospital onde tem uma ambulância
E a multidão te viu
Na Tevê
Que te vê
E te viu
Na Ti, Vi
Que é Tevê
Em inglês
Que todos nós
A esmo
Mesmo na escassesz
Se vê, não vê?
E que de antevê
e te fez tudo saber
Ainda como bebê
Ou até mesmo antes de nascer
Sem saber raciocinar
Ou aquela coisa
De escrever e ler






Estou adorando andar pelas ruas
como quem não quer nada
debaixo do sol
debaixo das luas
que são mais de duas
porque tem as artificiais
e no mais
não tem nada mais
só a felicidade
como névoa brilhante
por cima da cidade
em paz
(breque: vade retro satanás)



*Super-Homem é um Cristo só que mais transcendental
(a lá jorge Mautner)


Se gosta de amora, digamos ao seu homem que namora - Dani R. F.


Drama em três atos


I
Da ultima chuva que caiu
num acorde harmônico
criado numa ficção
neorromântica pseudo-erótica
Lola atuou com magnificência
O palco rastejou ao seu pés
e a plateia sugou-lhe a torpeza


II
noventa dias e um monodrama
pintado de nude e escarlate
escancarou-se a face dissimulada
- Esculpiram a safadeza!


III
Lola feito cama leoa
rasgue o vestido
dispa a pele parda
Enerve sua cara pálida
Pra ver se dessa sua languidez enjoada
saia algum torpe excremento.







Amora


Na casa de fundo do bairro Ipês
a mulher na sua ira claustrofóbica
ateou fogo nos sofás
quebrou a “tevê”
tentou suicídio.


Hoje de manhãzinha
vejo-a da janela
deitada sobre a calçada.
A mulher namora
um novo amor
debaixo de um pé
          de amora.

Cronópios e Famas -Julio Cortázar







A dança dos Famas

Os famas cantam em redor os famas cantam e se mexem
— CATALA TRÉGUA TRÉGUA ESPERA
Os famas dançam no quarto com lampiõezinhos e cortinas dançam e
cantam dessa maneira
— CATALA TRÉGUA ESPERA TRÉGUA
Guardas das praças, como deixam sair os famas, como deixam que eles
andem soltos cantando e dançando, cantando catala trégua trégua, dançando trégua
espera trégua, como podem?
Se ainda os cronópios (esses verdes, eriçados, úmidos objetos) andassem
pelas ruas, se poderia evitá-los com um cumprimento:
— Boas salenas cronópios cronópios.



 *pic: Roberto Bieto



Acontece que os cronópios não querem ter filhos, porque a primeira coisa
que um cronópio recém-nascido faz é insultar estupidamente seu pai, em quem
percebe sombriamente a acumulação de desventuras que um dia serão as suas.
Em vista de tais razões, os cronópios acodem aos famas para que estes lhes
fecundem as mulheres, coisa que os famas estão sempre dispostos a fazer por se
tratar de seres libidinosos. Além do mais eles acham que desta forma irão minando
a superioridade moral dos cronópios, mas se enganam redondamente, pois os
cronópios educam os filhos à sua maneira, e em poucas semanas lhes tiram
qualquer semelhança com os famas.



*pic: Roberto Bieto



Relógios

Um fama tinha um relógio de parede e dava-lhe corda todas as semanas
COM GRANDE CUIDADO. Passou um cronópio e ao vê-lo pôs-se a rir, foi para
casa e inventou o relógio-alcachofa ou alcaucil
outra maneira.

O relógio-alcaucil deste cronópio é um alcaucil da espécie grande, preso
pelo caule a um buraco da parede. As incontáveis folhas do alcaucil marcam a hora
atual e além do mais todas as horas, de maneira que basta o cronópio arrancar-lhe
uma folha para saber a hora. Como ele as vai arrancando da esquerda para a direita,
a folha marca sempre a hora exata, e cada dia o cronópio começa a tirar uma nova
rodada de folhas. Ao chegar ao coração, o tempo já não se pode medir, e na infinita
rosa roxa do centro o cronópio encontra um grande prazer, então come-a com
azeite, vinagre e sal, e põe outro relógio no buraco.
Mas os famas.
Eugenesia

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