Mato a Dentro - Raisa Faeti

Ser

No mato eu mato o peso do dia
O método do mato é o ato

No mato eu mato essa agonia
Só existe no mato o fato

No mato eu mato a selvageria
Tudo que vive no mato é grato

No mato eu mato a monocromia
Das vidas-cores o mato é farto

No mato eu mato a dicotomia
Toda ligação no mato é um hiato

No mato, eu morto, mato tudo
em minha companhia
O que há em mim, no mato, é mato

No mato, eu morto, acordo no outro dia
O que há em mim, no mundo, no mato, é apenas
mato



Desconstrução

Se for assim,
desmonto o telhado,
desassento os tijolos,
desarrumo a cama,
desvisto as roupas,
desligo as estrelas
e durmo no escuro com a bunda de fora

A Cracolândia é o Mundo

Olá navegantes.

Com gosto retomamos nossas atividades virtuais depois de um breve recesso por motivos pessoais e intransferíveis. Renascemos do casulo dispostos a de um contribuir de forma incisiva para o fim do mundo que se aproxima.

Por falar nisso, vou aproveitar o embalo pra falar sobre uns temas que tem feito barulho esses dias, e não tem nada a ver com o homem do filtro solar e seu programa que é a cara do Brasil de lavadeiras e fofoqueiras.

É o seguinte, recentemente desocuparam com força policial a USP, algumas favelas com as tais UPP's e a cracolândia paulista. Não é difícil ver uma relação entre isso tudo, que é o uso da força estatal para reprimir os "criminosos" em pontos chave da sociedade. Não vou bater muito na tecla da ocupação uspiana, eu acredito que ocupar espaços públicos não tem NADA a ver com vandalismo na medida em que esse ato se configura como um ato político, e também acho que seria muito mais eficaz uma força de segurança universitária autônoma, que não tenha nada a ver com a polícia militar, especialmente pelo histórico de atrito que existem entre essas duas instituições públicas ponto. E não cola pra mim o argumento geral que aquele bafafá todo era pra lutar pelo direito de fumar maconha na universidade, feito por alunos que não estudam e só querem mamar nas tetas do governo. 

Claro que isso existe, mas militância política estudantil não é, absolutamente, coisa de desocupado, e que pena que a esmagadora maioria das pessoas que se envolvem na política nos níveis municipal, estadual e federal não tem nenhum objetivo que não seja aumentar o firmamento que sustenta seu umbigo, e o bolso, é claro.

Quanto ao que tem passado em favelas e cracolândias, tem a ver com uma prática de higienização social que, pelo que me parece, tem a ver mais com limpar a vista pros turistas para a copa do mundo do que com algum intuito de transformação social. Se for só isso mesmo, como ninguém vai confessar, é só tratar o problema do crime e do vício como uma guerra, jogar a policia e o exército e pronto.

Uma reforma social passa pela segurança sim, mas acompanhada de uma série de pontos. No caso de SP o acesso à clínicas para tratamento de dependentes, combate à miséria e à pobreza extrema seriam o mínimo. Não me desce pela garganta gente vivendo daquele jeito num país rico como o nosso, só porque eles foram segregados dentro da lógica de compra e venda que perdura a tanto tempo no nosso país. Sem querer instaurar o comunismo de Fidel aqui, acho que o estado tem sim uma dívida histórica com todas as pessoas que não tem condições de moradia, saúde, alimentação educação e cultura. Ficar nesse papinho meritocrático de cima do trono é confortável e essa ingenuidade beira a crueldade.

O problema das drogas é bem mais profundo do que o moralismo burguês e cristão que é usado de forma geral pra tratar do assunto. É uma questão de saúde pública, de segurança, de um poder paralelo que surge pela ausência do estado, e impõe a sua força através da violência, como não poderia deixar de ser. Há outras drogas na praça, e sempre haverá um Al Capone pra vender o que seja proibido, e deixar para trás um banho de sangue enquanto os títeres da lei decidem o que deve e o que não deve ser legal, a partir das cordas que regem suas decisões.


Quando eu passei na cracolândia, sete horas da manhã da virada cultural, logo depois de um show bonitíssimo do Palavra Encantada, cheio de crianças e famílias, foi uma das cenas mais tristes da minha vida, até pelo contraste. Não consigo explicar o que eu senti, não há imagem de espanto, engasgo, frio na barriga, desespero pela condição humana ou alguma coisa que traduza.

A polícia sempre é um meio fácil de resolver os problemas pela força, quando não se consegue com outros meios, especialmente para os regimes totalitários e os pretensamente democráticos que cada vez mais se revelam outras ditaduras do consumo, da propaganda, da corrupção e da desigualdade.

Triste até que ponto de barbárie chegamos devido à pobreza e à riqueza.

Fica umas palavras e uns poemas que saíram a partir desse contexto.

Ainda em tempo:

Pelo andar da carruagem estou em dúvida de quem vai ganhar a Copa do Mundo:
As empreiteras, os patrocinadores, a Fifa, magnatas da construção civil?

Façam as apostas, o bolão e a corrupção já começaram.












A cracolândia é o mundo


Quem aos vícios
se nega


que acenda
a primeira pedra


...


Viciados em crack


Entre o neymar
e a cocaína


a questão é
de adrenalina


...


Criminalidade


Entre tiro de pó
e bala de boracha


não saberia dizer
qual a maior ameaça







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