Notícia Súbita - Ferreira Gullar

Ocorrência




Aí um homem sério entrou e disse: bom dia
Aí o outro homem sério respondeu: bom dia
Aí a mulher séria respondeu: bom dia
Aí a menininha no chão respondeu: bom dia
Aí todos riram de uma vez
Menos as duas cadeiras, a mesa, o jarro, as flores, as paredes, o relógio, a lâmpada, o retrato, os livros, o mata-borrão, os sapatos, as gravatas, as camisas, os lenços


Editorial - Sem Pauta

Um supermercado foi inaugurado,
as eleições estão chegando,
alguns movimentos de reivindicação estão sendo mais bem trabalhados,

as pessoas saíam absurdamente sorridentes do supermercado,

as pessoas estão entrando no clima do processo eleitoral, além de estarem com a disposição de sempre pra votar em seu candidato de sempre, sem tentar ouvir nem aos candidatos e nem a si mesmos antes,

os movimentos políticos de reivindicação estão vasculhando tudo minunciosamente procurando pautas para manterem suas lutas, no entanto desativaram o Diário Sistemático da Militância

E nós sem nenhum escândalo pra cobrir, ninguem esclarece qual foi o flagrante do CQC na câmara dos vereadores, não que tenhamos tentado com afinco descobrir tambem...

Também estamos sem pauta, mantendo a nossa pré-disposição para falar mal de todo mundo, mas sem nenhuma crítica muito construtiva pra fazer;

Caso alguém morra de overdose de iogurte,
Caso alguém sorria olhando o horizonte
Caso alguem se revolte por livre e espontãnea sensibilidade extra-sensorial e dê um grito bem altão pra depois se envergonhar por ser peformatico demais mande um e-mail para larvaspoesia@yahoo.com.br e entraremos em contato por telecinese postando imediatamente um poema de algum dos heterônimos de Fernando Pessoa.

Só levitações, sucos de maçã e outras bobagens, não nos encham com traficantes atirando em usuários, isso já era pro estado ter resolvido, e, se o estado não resolveu já era hora dos jovens saberem que é melhor não se meter com gente armada, se eles quisessem fazer bem a alguem portariam um sorvete de limão recém comprado para dar pra primeira meininha de oito anos com a testinha franzida porque o sol tá quente....







Que que adianta não ser imbecil ou borboleta, Manoel?

Entrar na Academia já entrei
mas ninguém me explica por que que essa torneira
aberta
neste silêncio de noite
parece poesia jorrando…
Sou bugre mesmo
me explica mesmo
me ensina modos de gente
me ensina a acompanhar um enterro de cabeça baixa
me explica por que que um olhar de piedade
cravado na condição humana
não brilha mais que anúncio luminoso?
Qual, sou bugre mesmo
só sei pensar na hora ruim
na hora do azar que espanta até a ave da saudade
Sou bugre mesmo
me explica mesmo:
se eu não sei parar o sangue, que que adianta
não ser imbecil ou borboleta?
Me explica porque penso naqueles moleques
como nos peixes
que deixava escapar do anzol
com o queixo arrebentado?
Qual, antes melhor fechar essa torneira, bugre velho...


Henri Matisse

PERDER A INTELIGÊNCIA DAS COISAS PARA VÊ-LAS.

Manoel de Barros

Três tapas na cara, por Manuel Bandeira

Poética
Estou farto do lirismo comedido 
Do lirismo bem comportado 
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente protocolo e manifestações de apreço ao sr. diretor. 

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário o cunho vernáculo de um vocábulo. 

Abaixo os puristas. 
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais 
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção 
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis 

Estou farto do lirismo namorador 
Político 
Raquítico 
Sifilítico 
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja fora de si mesmo. 

De resto não é lirismo 
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes maneiras de agradar &agraves mulheres, etc. 

Quero antes o lirismo dos loucos 
O lirismo dos bêbados 
O lirismo difícil e pungente dos bêbados 
O lirismo dos clowns de Shakespeare. 

- Não quero saber do lirismo que não é libertação.
...
Nova Poética
Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito,
Saí um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:
É a vida
O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e as amadas que envelheceram sem maldade.
...
O bicho

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.
Ecos por un grito (1937) - David Alfaro Siqueiros - Pintor Mexicano
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