Larva Lança Livro - Metal Físico




A série de publicações poéticas Intervenção Humana, de Vinicius Tobias, chega ao seu 4º Capítulo. Após o Eu poético passar fome de moderação no Primeiro Capítulo, tentar minimamente organizar-se como um país vencido no Segundo Capítulo, projetar para o futuro sua própria humanidade no Terceiro Capítulo, agora sem nenhuma veste ele se pergunta sobre o sentido da existência.
Ao fazer esse debate a própria linguagem que descreve a realidade, aliás, a própria realidade é posta em cheque. As coisas realmente existem?
Traçados esses planos qual é o céntimo de realidade que temos acesso pela nossa vida cotidiana, cheias de distinções e de sérios problemas que não têm sustentação perante qualquer entendimento? Dar nomes e criar conceitos é um passo para frente ou para trás na busca pela sabedoria?
É possivel imaginar as coisas sem nossos sentidos para percebê-las, e se nossos sentidos fossem outros, as coisas também seriam outras?
O debate sobre esse acesso é feito, de forma processual, no livro Metal Físico a partir de quadras banais, leis da física e fotos anti-linguísticas.
Segue degustação:





* O coffee break será oferecido pela Padaria Pão Gostoso.

"Panifesto" da Poesia Urbana contra o Eufemismo e a Cátedra - Lucas F.L

Que fique bem claro seu-dotô
A Poesia Urbana é uma praga
que se alastra como as favelas
cheira à água de despejo
perturba como insônia
tem a força do tráfico
e o atrevimento dos pivetes do Brás

Não adianta fechar seus vidros elétricos
e viajar para a Glória, a baía, a linha do horizonte
pois a fome das ruas arranhará sua lataria importada
incendiará sua vitrine de magazines 

Ela anda como os desprovidos
revela sem eufemismo'
as mazelas humanas
a cidade oculta
a tristeza dos chineses
a loucura reprimida dos Garis

Se cuida, turista deslumbrado
um arrastão de versos miseráveis
invadirá sua praia
sequestrará seus fetiches literários,
seus continhos fantásticos,
e estraçalhará sua poesia plástica
num tiroteio hediondo

Um conselho?
se não quiser perder a pose
corra para bem longe
esconda-se atrás dos muros da academia
dope seus jovens operários com boas doses de informação
títulos
e reproduza robôs mais fortes
o suficiente para dar conta do que você não deu

Aqui fora
as crianças continuam praticando papai e mamãe
jovens morrem com a cabeça vazia no volante
existe uma massa de carne e osso dopada de altas doses-
institucionais
escolas apodrecem
falta teatro, cinema e orgia para o povo

E você catedrático, 
só preocupado com a chegada de um livro
importado
e o congresso no planeta Hermético


*pic: Lucas F.L


Poesia Poligrota - Autor Desconhecido

É verdade matemática
que ninguém pódi negá,
que essa história de gramática
só serve pra atrapaiá.
Inda vem língua estrangêra
ajudá a cumpricá
Mió falá o brasileiro
que todos sabe falá.

     Na Ingraterra ouví dizê
     que um pé de sapato é xu.
     Desde logo já se vê,
     dois pé deve sê xuxu.
     Xuxu pra nóis é um ligume
     que cresce sorto no mato.
     Os ingrêis lá que se arrume,
     mas nóis num come sapato.

Na Argentina, veja ocêis,
um saco é um paletó.
Se o gringo toma chuva
tem que pô saco no sór.
E se acaso ele encóie,
a muié diz o pió:
"Teu saco ficô piqueno
vê se arranja ôtro maió"...

    Na América corpo é bódi
    Veja que bódi foi dá.
    Conheci uma americana
    doida pro bódi emprestá.
    Fiquei meio atrapaiado
    e disse pra me escapá:
    Ói, moça, eu não sou cabra,
    chega seu bódi pra lá!

Na Alemanha tudo é bundes.
Bundesliga, bundesbão.
Muita bundes só confundi
disnorteia o coração.
Alemão ó, menos bundes
que só nos trais confusão.
pro que di trais desses bundes
sempre vem um salsichão.

    No chile cueca é dança
    de balançá e rodá.
    Lá se dança e baila cueca
    inté a noite acabá.
    Mas se um dia um chileno
    vié pro Brasi dançá,
    que tente mostrá a cueca
    pra vê onde vai pará.

Eu conheci um francêis 
que me deu uma gravata azu.
Preguntei, onde se bota?
E ele me disse no cu.
Eu sou óme confirmado
mais respeito entendeu?
Seu franceis mar educado
bota a gravata no seu!

    E vindo de Portugá
    tem um dizê que num cola
    lá os putos são as crianças
    imagine isso na escola
    a fessora vim dize:
    vou da aula pra esses putos
    oh! tiro meus fio na hora,
    num dimito esses insurtos

E o Japão que aqui chegô
Sim sinhoro arigatô
com o kimono e o co shoyo
vapt a nossa lingua robo
nois fazia era serenata
hoje é karaokê
aquelas briga de tapa
Elis diz que é Karatê

    E pra vosmiceis eu afirmo,
    tem que se tê pusição.
    Ô nóis fala a nossa língua,
    ô num fala nada não.
    Pois num pode um povo
    fazê papér de idiota,
    dizendo tudo que é novo
    só pra falá poligrota

Na Itália els diz até,
eu não sei pro que razão,
que como mantêga é burro,
se passa burro no pão.
Ara agora chega,
certo é a vida no sertão,
onde mantêga é mantêga,
burro é burro e pão é pão (e tenho dito)




*Extraído do cordel "Cordéis do Canfundó" de Cascão.
** Parece que vender poesias na rua não é novidade não né...

De corpo e software - Igor Alves

não que eu me importe 
com a altura da sua 
literatura
escorrendo pelo
cânone

sei, é deprimente
a cultura pop
subdesenvolvida
dessa triste
américa latina

felizmente
pra aumentar 
minha auto estima
tenho o face

compartilho uma 
frase do Shakespeare

não sei se é confiável
mas é bonita

se quiser comente
mas não critica

a situação da crítica
é crítica

leio e me livro
depois caio
na vida

tem novela às nove
depois jogo do flamengo

na night um show
de samba rock

no corujão vai passar Hamlet


vou assistir
.
.
.
se chegar a tempo




* pic: Glauco Soares
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