O garçom - José Carlos Balieiro



    Lia-se num pequeno cartaz pregado à porta de vidro: precisa-se de garçom. O rapaz deteve-se por um instante frente ao restaurante, sentiu-se um pouco intimidado diante do luxo do estabelecimento. Era um desses antigos casarões com inúmeras janelas e telhado colonial; ostentava certo ar aristocrático, pela vidraça era possível ver os móveis em mogno que davam ao recinto um ar nostálgico. Inúmeros quadros em molduras douradas completavam a decoração requintada do ambiente. Na recepção, estavam dispostas aconchegantes poltronas ao redor de sua suntuosa lareira.

      Não era nada semelhante àquelas espeluncas, em que ele trabalhou servindo cervejas e torresmos; pequenos bares que dispunham mesas na calçada irregular, tendo no seu interior apenas um pequeno balcão e algumas poucas mesas amarelas de plástico ordinário. Os donos desses estabelecimentos eram criaturas demasiadas simples e grosseiras, que em nada se distinguiam dos garçons.

     Pensou em dar meia volta, talvez fosse melhor procurar um lugar mais simples, mas pensou também que certamente não encontraria uma oportunidade melhor, sem contar que deveria se pagar o dobro do que os outros restaurantes comuns costumam pagar.

      A necessidade de dinheiro o empunhou porta adentro. O jovem deu de cara com um senhor magro, de bocheçhas salientes, vestido num terninho azul; uma gravata borboleta vermelha apertava o pescoço fino do sujeito que educadamente se pos a falar.

      - Pois não? Certamente está interessado na vaga de garçom, possuí alguma experiência?

    -Sim senhor. Respondeu o jovem, baixando os olhos timidamente, temendo que o homem pedisse alguma referência.

      Durante alguns segundos o senhor fitou o rapaz da cabeça aos pés com um olhar cínico e esnobe, em seguida, ordenou em tom autoritário: "Acompanhe-me por aqui". Subiram dois andares por uma escada, cujo assoalho estalava a cada degrau; desembocaram então num corredor longo forrado com um carpete avermelhado, que ao final dava num imenso salão. Lustres de cristal ofereciam uma iluminação misteriosa ao lugar, um chão de madeira tão bem encerado refletia a lua, que por uma das grandes janelas adentrava o cômodo luxuoso.

      Aqui está o local onde sevimos nossos pratos, dizia o homem, ali naquela porta é onde você irá buscar as refeições. Servir mesas é um trabalho extremamente fácil. Exige-se apenas atenção, bastante atenção. Venha cá. A mesa já está montada, os garfos de salada, de carne, a taça de vinho, tudo em seu devido lugar. O que você precisa fazer é apenas depositar o prato no local, não há segredo, consegue fazer isso? Muito bem. Lembre-se, isso é muito importante, sempre pela esquerda, nunca sirva pelo lado direito do cliente. Ao servir o vinho incline a taça levemente, não é preciso encher até a boca, apenas três dedos. Compreendeu? Alguma dúvida? Disse por fim o homem arqueando exageradamente suas sombrancelhas bem feitas.

      - Não senhor. Aliás, sim senhor. Quanto é que vocês pagam pelo dia de serviço? Perguntou o garçom de modo acanhado e inseguro fitando àquelas temíveis sombrancelhas.

      - Ora, pagamos o preço justo. Tendo em vista a inflação que atualmente tem nos causado grandes prejuízos. Veja, por exemplo, a Europa, o velho continente sofre com os efeitos da crise, aqui também os danos não são menores, e o que faz nosso governo? Queima nosso dinheiro com a preguiça do povo ao invés de investir na classe empresarial que sem dúvida é o grande alicerce econômico dessa nação. Situação terrível! Mas fazer o que? Façamos nossa parte. Ficamos acertados assim, o preço justo! Nada mais nada menos. Ao fim do expediente repasso a quantia ao senhor, mais alguma dúvida?

      O garçom se esforçou por compreender o que afinal seria o preço justo. De todo modo, começou naquele mesmo dia. Para seu alívio não precisou vestir gravata borboleta, apenas uma touca para encobrir o cabelo e um longo avental branco. A roupa exalava um delicioso aroma de tempero, o que fez lembrar que não havia comido nada durante todo aquele dia, sentia-se fraco e um pouco confuso. Umas fisgadas pontuais no seu estômago anunciavam os sintomas da fome. Preciso comer algo, pensava consigo, pedirei qualquer coisa, certamente não vão me negar comida.

      - A propósito meu nome é...

      - Não é preciso dizer seu nome, meu jovem. Nós o chamaremos de garçom. Interrompeu bruscamente o homem fitando o rapaz nos olhos.

      -As outras mesas onde é que estão? - Perguntou o rapaz virando o rosto, desencorajado pela resposta rápida e seca.

      - Não há outras mesas, temos pouquíssimos clientes, na verdade apenas um. Ele chegará dentro de alguns instantes, peço que nunca olhe para o seu rosto, ele é bastante reservado. Informou o homem da gravata se retirando.

     Pouco tempo depois um indivíduo gigantesco adentrava o salão, seus passos, com grande impacto, faziam ranger a madeira do chão, sentou-se acomodando seu traseiro monstruoso na cadeira da única mesa disponível, e ficou paralisado, ocioso como um sapo à espera de moscas e besouros. O garçom ficou intimidado perante aquela criatura obesa sem pescoço metida num terno preto. A mesa estava distante, mas era possível ouvir um repugnante ronco de estômago. Não era bem um simples ronco motivado pela fome, pois nesse mundo as criaturas que mais se alimentam, são as que sentem menos fome.

   A campainha da cozinha tocou. E lá estava, num pequeno balcão, na porta do fundo, o primeiro prato da noite. Era uma fumegante sopa de legumes que encheu de água a boca do garçom, que maravilha de sopa pensava com pesar o rapaz enquanto servia o prato cuidadosamente pela esquerda, como o recomendado, tendo o total cuidado de não fitar o rosto do cliente. Assim que virou as costas, uma voz cavernosa ecoou pelo salão: traga-me o segundo prato!

    Assustado, o garçom se virou rapidamente. Impossível! Em questão de segundos a sopa quente havia desaparecido. O estômago continuava a emitir um ronco voraz. O rapaz se apressou com a bandeja em busca da segunda refeição. Uma pequena porta se abriu e deixou no pequeno balcão uma maravilhosa porção de filé de merluza com batatas assadas. Aquela reveição arrancou um suspiro de sofrimento do garçom que seguiu faminto e apressado com a bandeja.

     Aproximou-se cauteloso e depositou o prato sobre a mesa, ouviu de perto o ronco do estômago, era incrivelmente alto, como se um animal habitasse aquela barriga avantajada. No momento em que ia se retirar carregando a bandeja vazia, sentiu seu braço sendo violentamente puxado. O cliente com uma boca implacável cravou uma mordida no ombro do garçom. O rapaz se contorceu de dor e tentou se desvencilhar, mas era imensa a força daquelas mãos rechonchudas que o agarraram. A segunda mordida recaiu certeira sobre o pescoço. O avental ensopou-se de sangue. Em vão o garçom gritou por ajuda, ninguém o socorreu e ele foi devorado em poucos segundos. O homem de gravata borboleta ficou a contemplar a cena, constatando feliz que seu cliente sairia como sempre, mais uma vez, de estômago satisfeito com o prato especial da casa.

      
 José Carlos Balieiro
Maio de 2014




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